segunda-feira, 15 de setembro de 2025
sábado, 13 de setembro de 2025
A ecologia política da Amazônia: Ecologia política Amazônia, primeira sessão do curso acontecido na UEA/CESTB/EIPECAM/LAEDS 11/11/2024
A ecologia política da Amazônia exige que voltemos um passo antes da técnica para interrogar os modos pelos quais aprendemos a ver a natureza e a ver uns aos outros. Durante a formação em biologia, acostumamo-nos à linguagem das leis, das variáveis e do “erro” estatístico. Em laboratório, a variação é ruído a ser controlado; na vida, porém, a variação é regra constitutiva. A diferença não é apenas metodológica: ela denuncia uma ontologia. Quando passamos do animismo e do totemismo — em que rios, florestas e animais são pessoas, parentes e coautores do mundo — para a racionalidade instrumental ocidental, instituímos uma separação entre sujeito e objeto que torna a natureza coisa obediente, mensurável e manipulável. Essa chave cognitiva sustenta o avanço da ciência moderna, mas também o fetichismo da mercadoria, o extrativismo e as rotas pelas quais a crise ambiental se converte, hoje, em crise civilizatória.
Chamar de “ecologia política” o estudo dessas questões não é simples soma de temas. Ecologia, por si, trata das relações entre seres e ambientes; política, da arte de habitar a polis — gerir conflitos, pactos e indiferenças entre pessoas. A ecologia política interroga quem define a natureza, com que ideias, a mando de quais interesses e com quais consequências distributivas. É, portanto, um campo que põe lado a lado cosmologias (biodiversidade, Pachamama, Gaia, biosfera) e arranjos de poder (estados, mercados, comunidades), reconhecendo que cada modo de imaginar a natureza abre e fecha possibilidades de uso, de cuidado e de violência.
A modernidade europeia condensa esses deslocamentos. A revolução científica consolidou a causalidade e a lógica meios-fins como gramática de inteligibilidade do real; a expansão ultramarina e o capitalismo transformaram mundos em circuitos de mercadorias. Marx mostrou que a mercadoria é forma social que encobre as relações de exploração, inclusive a mercadoria-trabalho fabricada pela escravidão moderna. Weber observou como certas instituições e éticas — notadamente a protestante — forjaram sujeitos disciplinados, calculistas e metódicos, afinados com a acumulação. Durkheim, por sua vez, indagou como a coesão social se recompõe (ou se rompe) em meio à diferenciação moderna. O ponto é que ciência, religião, economia e direito não operam em compartimentos estanques: são engrenagens de uma mesma máquina civilizatória que aprende a tratar o mundo como reserva infinita para projetos de domínio.
No espaço amazônico, a primeira modernidade abriu-se como fronteira mercantil. Desde o século XVII, Belém tornou-se entreposto de circulação de açúcar, pau-brasil e “drogas do sertão”. O regime de aviamento, alimentado pelo endividamento e, antes dele, pela escravidão africana, articulou o comércio de longa distância a uma economia extrativa de base florestal. A borracha é o emblema dessa ordem: sua ecologia — árvores dispersas, produção sazonal, necessidade de deslocamentos longos — empurrou o sistema para formas predatórias de exploração do trabalho e do ambiente. A segunda modernidade, industrial, não substituiu esse padrão; apenas o potencializou com o motor a vapor, a motosserra, a retroescavadeira e a logística de grandes volumes. Manaus, primeiro enriquecida pelo ciclo da borracha e depois reconfigurada pela Zona Franca, expressa a ambivalência: modernidade técnica concentrada na capital, baixa difusão territorial, interior mantido como hinterlândia extrativa e consumidor de mercadorias importadas.
O fracasso de Fordlândia é lição paradigmática. A tentativa de impor monocultura de seringueira ao estilo do agronegócio industrial encontrou pragas para as quais o arranjo ecológico florestal tinha respostas próprias (dispersão das árvores, heterogeneidade, mosaicos), mas que a racionalidade padronizadora recusou ver. Somam-se as doenças tropicais em cidades operárias desenhadas contra os conselhos do ambiente. A imagem é direta: quando a técnica ignora a ecologia, o sistema vivo devolve a conta. O mesmo vale para outras cadeias: a exploração do açaí pelo palmito mata as palmeiras e desertifica a renda; já o manejo do fruto sustenta a planta, diversifica usos e distribui benefícios. No garimpo, o mercúrio acelera o ganho privado enquanto socializa contaminação e doença; tecnologias sem mercúrio existem, mas exigem outra temporalidade, outra infraestrutura e outro pacto social. Em todos os casos, escolhas técnicas são escolhas políticas encapsuladas.
A crise que hoje nos atravessa não é só do clima, da água, da biodiversidade; é da própria gramática civilizatória que nos ensinou a ver sementes como “unidades replicáveis”, pacientes como “casos”, estudantes como “recipientes” e florestas como “estoques”. O que retorna como desmatamento, eventos extremos, epidemias e injustiças é o efeito cumulativo de um mundo organizado para otimizar meios em direção a fins estreitos e de curto prazo. Não se trata de negar a ciência — sem a qual sequer reconheceríamos a magnitude dos danos —, mas de recuperar outros regimes de relação com o vivo capazes de temperar a racionalidade instrumental com vínculos de reciprocidade, cuidado e limites.
Nesse ponto, a educação torna-se alavanca. Pesquisa e extensão, sozinhas, não alteram práticas se não houver sujeitos aptos a traduzir entre as linguagens do laboratório e as dos territórios, entre a curva dose-resposta e a história das comunidades, entre o planejamento logístico e as ontologias indígenas, ribeirinhas e quilombolas. A ecologia política propõe esse ofício de ponte: aprender a teoria social clássica não como dogma, mas como ferramenta; reaprender as cosmologias locais não como “folclore”, mas como inteligência ambiental; requalificar a tecnologia não como fetiche, mas como arte de adequação. Isso implica também treinar o olhar para ler as controvérsias públicas: reconhecer, numa matéria de jornal, quem fala pela biodiversidade e quem fala pela mercadoria; rastrear fluxos de poder, de financiamento e de risco; distinguir manejo de espoliação; valorizar experiências de economia do cuidado que, silenciosamente, já produzem sustentabilidade real.
A pergunta que nos guia — como queremos viver? — desloca o debate do “que explorar e com que eficiência” para “que relações queremos sustentar e com que responsabilidades”. O animismo e o totemismo não são, aqui, passados a serem romantizados, mas lembranças de que é possível habitar o mundo como parente, e não como proprietário. A racionalidade instrumental não precisa ser descartada; precisa ser situada e contrabalançada por cosmologias que reconhecem agência, interdependência e limites. Talvez a Amazônia ainda exista, em parte, porque nunca foi totalmente subordinada ao ideal de uniformização; porque sua ecologia resiste à monocultura e porque muitas de suas gentes, apesar de pressões seculares, preservam redes de reciprocidade e conhecimento. Cuidar desse resto ativo não é nostalgia: é condição de futuro.
Se a modernidade nos deu ferramentas potentes, cabe-nos agora refinar a “peneira” com que filtramos seus usos. Um tecido intelectual mais denso — no qual biólogos leem Weber, sociólogos estudam ecologia, engenheiros reconhecem cosmopolíticas indígenas — pode carregar pesos maiores sem rasgar. O que está em jogo não é um ajuste técnico, mas uma mudança de relação: transformar a ciência de instrumento de extração em prática de aliança; transformar políticas públicas de comando-controle em arranjos de co-gestão; transformar mercados de mercadorias indiferentes em economias situadas, cuidadosas e reparadoras. É nesse território — entre saber, poder e pertencimento — que a ecologia política da Amazônia encontra sua tarefa.
MUDANÇAS CLIMÁTICAS_🌱 🍿 CINEMA AMBIENTAL🍿 📌📌 Local: LABORATÓRIO DE AGROECOLOGIA UEA/CESTB
quinta-feira, 11 de setembro de 2025
sábado, 23 de agosto de 2025
COP30 em Belém: Falta de estrutura ou estratégia de sabotagem?
COP30 em Belém: Falta de estrutura ou estratégia de sabotagem?
Belém está (des)preparada?
Não há rede hoteleira suficiente para acomodar delegações.
O transporte público é precário.
O saneamento básico é insuficiente.
Os eventos climáticos extremos (calor, chuvas torrenciais, alagamentos) se intensificam a cada ano.
Enquanto isso, a preparação da cidade segue sem transparência, participação popular ou planejamento estratégico. A impressão é que se improvisa uma cidade-cenário para um evento que será blindado da realidade local.
A pergunta incômoda: estão sabotando a COP30?
É preciso considerar uma hipótese política: e se o despreparo não for só negligência, mas uma forma de sabotagem institucionalizada?
Um evento em um local sem infraestrutura:
Dificulta a presença de representantes da sociedade civil, povos indígenas e movimentos sociais.
Restringe a participação a elites diplomáticas e empresariais.
Cria um ambiente despolitizado, controlado e superficial.
A COP30 pode ser sequestrada por interesses que falam de “transição verde”, enquanto promovem novas formas de greenwashing — com marketing ambiental e pouca transformação real.
Belém: ponto de encontro de múltiplos “tipping points” ambientais
Escolher Belém para sediar a COP30 deveria significar muito mais do que uma decisão geográfica ou simbólica. A cidade é, na prática, uma zona crítica de convergência de crises globais, pois concentra manifestações locais de pelo menos cinco dos nove tipping points ambientais globais já reconhecidos pela ciência:
🌳 1. Colapso da floresta amazônica
O desmatamento avança no entorno urbano e rural de Belém. A fragmentação de florestas em ilhas verdes aumenta a vulnerabilidade ecológica e acelera a savanização.
🌊 2. Elevação do nível do mar
Belém já sofre com inundações constantes em bairros de baixa altitude. A elevação do nível do rio Guamá e da Baía do Guajará impacta diretamente comunidades ribeirinhas e urbanas.
💧 3. Disfunção no ciclo hidrológico amazônico
A destruição florestal compromete os “rios voadores” — massas de umidade que regulam o clima do continente. Isso afeta diretamente o regime de chuvas da região.
🌡️ 4. Ilhas de calor urbano
O crescimento desordenado e a perda de cobertura vegetal tornam Belém uma cidade cada vez mais quente, com impactos diretos na saúde pública (doenças respiratórias, cardiovasculares e aumento da mortalidade de idosos e crianças).
🌱 5. Erosão da biodiversidade
Belém, outrora um berço de biodiversidade urbana, perde a cada ano espécies de fauna e flora por conta da poluição, da impermeabilização do solo e da expansão urbana sem critérios.
Transformar ou encobrir?
É inadmissível que uma cidade com esse grau de complexidade ambiental seja tratada como palco cenográfico.
Belém poderia ser um laboratório vivo de soluções sustentáveis baseadas na natureza, na ciência local, na agroecologia urbana, nos saberes dos povos originários. Mas corre o risco de ser maquiada para a câmera e abandonada depois da foto oficial.
A COP precisa ser da Amazônia, não sobre ela
É urgente:
Garantir infraestrutura justa e acessível, não apenas “vistosa”;
Incluir as vozes amazônicas em todos os níveis do evento;
Fazer da COP um momento de inflexão real, e não de propaganda vazia.
Porque Belém não está apenas em risco — ela é um espelho do que está por vir no planeta inteiro se não tomarmos outro rumo.

