segunda-feira, 30 de março de 2026

Diálogos e Relatos de Experiências sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA): desafios e possibilidades para a construção de uma universidade inclusiva no Alto Solimões

Diálogos e Relatos de Experiências sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA): desafios e possibilidades para a construção de uma universidade inclusiva no Alto Solimões

Maria Francisca Nunes de Souza  INC/UFAM

Resumo


Este artigo analisa a experiência do projeto “Diálogos e Relatos de Experiências sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA)”, realizado no Instituto de Natureza e Cultura da Universidade Federal do Amazonas (UFAM/INC), no município de Benjamin Constant (AM). A iniciativa, desenvolvida em alusão ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo, teve como objetivo promover a sensibilização da comunidade acadêmica acerca dos direitos das pessoas com TEA, com ênfase na inclusão no ensino superior e no enfrentamento do capacitismo. A pesquisa se insere no campo da educação inclusiva e caracteriza-se como uma ação de extensão universitária com abordagem qualitativa, fundamentada na construção de espaços dialógicos e participativos. Os resultados evidenciam que, embora haja avanços normativos no Brasil, persistem desafios estruturais, pedagógicos e atitudinais para a efetivação da inclusão. Conclui-se que iniciativas como esta contribuem para o fortalecimento de práticas inclusivas e para a consolidação de uma universidade comprometida com a diversidade.


Palavras-chave: TEA; educação inclusiva; ensino superior; direitos humanos; capacitismo.


1. Introdução


A ampliação do acesso ao ensino superior nas últimas décadas tem evidenciado a necessidade de repensar as práticas institucionais no que se refere à inclusão de sujeitos historicamente marginalizados. Dentre esses grupos, destacam-se as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), cuja presença nas universidades vem crescendo, tensionando modelos tradicionais de ensino ainda pouco sensíveis à diversidade.


Embora o ordenamento jurídico brasileiro reconheça o direito à educação inclusiva, a efetivação desse direito ainda encontra barreiras significativas, especialmente no ensino superior. A inclusão, nesse contexto, não pode ser reduzida à matrícula, mas deve envolver condições reais de permanência, aprendizagem e participação.


Nesse cenário, o projeto “Diálogos e Relatos de Experiências sobre o TEA” emerge como uma estratégia de intervenção no espaço acadêmico, buscando promover a conscientização e fomentar práticas inclusivas. Este artigo tem como objetivo analisar essa experiência, discutindo suas contribuições e limites para a construção de uma universidade inclusiva no Alto Solimões.


2. Educação Inclusiva, TEA e Ensino Superior: bases conceituais e legais


O TEA é compreendido como uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por diferenças na comunicação, interação social e padrões comportamentais. No campo educacional, sua inclusão no público da educação especial está assegurada por marcos legais como a Lei nº 12.764/2012 (Lei Berenice Piana), que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA.


Além disso, a Lei nº 13.146/2015 (Lei Brasileira de Inclusão) e o Decreto nº 12.686/2025 reforçam a necessidade de políticas educacionais inclusivas, destacando a acessibilidade, a equidade e o atendimento educacional especializado como pilares fundamentais.


No entanto, a literatura aponta que a inclusão no ensino superior ainda enfrenta desafios relacionados à falta de formação docente, à rigidez curricular e à insuficiência de políticas institucionais efetivas. Nesse sentido, o conceito de capacitismo torna-se central, ao evidenciar práticas discriminatórias naturalizadas que limitam a participação plena das pessoas com deficiência.


Assim, a construção de uma universidade inclusiva exige não apenas adaptações técnicas, mas uma transformação cultural que reconheça a diversidade como elemento constitutivo do processo educativo.


3. Metodologia


Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa, com base em uma experiência de extensão universitária. O projeto foi realizado no dia 26 de março de 2026, no Auditório do Instituto de Natureza e Cultura da UFAM, no município de Benjamin Constant (AM).


A proposta metodológica fundamentou-se na criação de um espaço dialógico, envolvendo acadêmicos, professores, técnicos administrativos e comunidade externa. As atividades desenvolvidas incluíram:


Mesa de abertura com representantes institucionais;

Palestra sobre TEA e direitos humanos no contexto do Alto Solimões;

Mesa redonda com relatos de experiências no ensino superior;

Exibição de filme com temática relacionada à inclusão.


A metodologia adotada privilegiou a escuta ativa, o compartilhamento de experiências e a construção coletiva do conhecimento, aproximando-se de uma perspectiva de pesquisa-ação.


4. Resultados e Discussão


A realização do evento evidenciou a importância de espaços institucionais voltados ao debate sobre inclusão e direitos humanos. A participação diversificada do público possibilitou a emergência de múltiplas perspectivas sobre os desafios enfrentados por estudantes com TEA no ensino superior.


Entre os principais pontos discutidos, destacam-se:


A necessidade de fortalecimento dos Núcleos de Acessibilidade e Inclusão (NAI);

A importância de práticas pedagógicas flexíveis e adaptadas às diferentes formas de aprendizagem;

A carência de formação continuada para docentes no campo da educação inclusiva;

A persistência de barreiras atitudinais e institucionais.


Outro aspecto relevante foi o destaque dado ao protagonismo das pessoas com TEA, rompendo com uma perspectiva assistencialista e reconhecendo esses sujeitos como agentes ativos na construção do espaço universitário.


Os debates também evidenciaram que a inclusão não se limita a políticas formais, mas depende de mudanças nas relações sociais e nas práticas cotidianas dentro da universidade.


5. Considerações Finais


A experiência do projeto “Diálogos e Relatos de Experiências sobre o TEA” demonstra que a promoção de espaços de diálogo e reflexão é fundamental para o avanço da inclusão no ensino superior.


Embora existam avanços legais significativos, a efetivação de uma universidade inclusiva ainda demanda esforços contínuos no âmbito institucional, pedagógico e cultural.


Conclui-se que iniciativas como esta contribuem para a sensibilização da comunidade acadêmica, para o enfrentamento do capacitismo e para a construção de uma educação superior mais democrática, acessível e comprometida com a diversidade.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Os delegados na COP30 parecem não entender o que é um roteiro. Um roteiro não é uma oficina ou uma reunião ministerial.

 





Estamos numa encruzilhada planetária. Já enfrentamos perigos. Bilhões de pessoas sofrem e estamos nos aproximando rapidamente de pontos de inflexão na Amazônia, nos recifes de coral tropicais e em muitos outros ecossistemas. A COP30 tem uma escolha a fazer: proteger as pessoas e a vida ou a indústria dos combustíveis fósseis.


Na forma como estão, ambas as propostas de roteiros para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e para o fim do desmatamento são uma provocação. Os delegados parecem não entender o que é um roteiro. Um roteiro não é uma oficina ou uma reunião ministerial. Um roteiro é um plano de trabalho concreto que precisa nos mostrar o caminho de onde estamos para onde precisamos chegar, e como chegar lá.


Precisamos estar o mais próximo possível de zero emissões absolutas de combustíveis fósseis até 2040, no máximo até 2045. Isso significa, globalmente, nenhum novo investimento em combustíveis fósseis, a eliminação de todos os subsídios a esses combustíveis e um plano global sobre como introduzir gradualmente fontes de energia renováveis e de baixo carbono de forma justa, e eliminar os combustíveis fósseis rapidamente. O financiamento de países ricos para países em desenvolvimento é imprescindível.


Na COP 30 em Belém, já não basta reiterar que o financiamento dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento é imprescindível – ele precisa ser previsível, baseado em doações e consistente com uma transição justa e equitativa. A credibilidade do Acordo de Paris depende disso. Sem ampliar e reformar o financiamento climático, os países em desenvolvimento não podem planejar, investir e implementar as transições necessárias para uma sobrevivência compartilhada.


A única razão pela qual podemos ter uma eliminação gradual e ordenada dos combustíveis fósseis é porque presumimos que as florestas continuarão sendo um importante sumidouro de carbono. Infelizmente, temos cada vez mais evidências de que as florestas estão se transformando de sumidouros de carbono em fontes de carbono. Isso acontece porque as florestas são vulneráveis às mudanças climáticas, que causam secas, incêndios, ondas de calor e conversão do uso da terra mais frequentes e intensas. A principal causa das mudanças climáticas é a queima de combustíveis fósseis; portanto, sem uma eliminação gradual dos combustíveis fósseis, as florestas podem não ter a capacidade de sobreviver e prosperar. É por isso que é igualmente urgente ter um plano para eliminar simultaneamente os combustíveis fósseis e acabar com o desmatamento.


A maioria das florestas tropicais intactas encontra-se em países em desenvolvimento. O roteiro para o fim do desmatamento deve incluir apoio financeiro, capacitação e monitoramento robusto. A proteção florestal não pode ser usada como compensação. As florestas em pé não podem ser uma desculpa para continuar queimando combustíveis fósseis.


A curva global de emissões de gases de efeito estufa precisa se estabilizar no próximo ano, 2026, e não em algum momento futuro. Precisamos começar agora a reduzir as emissões de CO2 provenientes de combustíveis fósseis em pelo menos 5% ao ano. Isso é imprescindível para que tenhamos alguma chance de evitar impactos climáticos incontroláveis e extremamente custosos que afetarão todas as pessoas no mundo.


O orçamento global de carbono, calculado pela ciência, constitui a base para orientar a agenda de mitigação e o ritmo de redução das emissões. O RCB (orçamento de carbono restante) está agora essencialmente esgotado, restando apenas 130 bilhões de toneladas de CO2, o equivalente a 3-4 anos de emissões globais na taxa atual. Este orçamento científico fornece a base para todas as políticas climáticas sérias. É a nossa ferramenta de contabilização para nos mantermos longe do perigo. Remover o orçamento de carbono do texto significa remover a realidade da COP.


SIGNED


Carlos Nobre – Science Panel of the Amazon


Fatima Denton – United Nations University


Johan Rockström – Potsdam Institute for Climate Impact Research


Marina Hirota – Instituto Serrapilheira


Paulo Artaxo – Universidade de São Paulo


Piers Forster – University of Leeds


Thelma Krug – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

https://www.linkedin.com/pulse/os-delegados-na-cop30-parecem-n%25C3%25A3o-entender-o-que-%25C3%25A9-um-torres-sanchez-1fh6f



terça-feira, 18 de novembro de 2025

​​Governos mundial e nacionais NÃO van fazer nada para conter o CO2/CH4 bairros, comunidades e municipios devem entrar para fazer esse trabalho com trabalho humano sem $$$$$ pois este não vai vir.


 As emissões vêm da forma como vivemos, nos alimentamos, nos deslocamos e organizamos nossas cidades.

Isso significa que a ação climática mais eficaz é local, porque:

  • é no território onde se produz, consome e descarta;
  • é no território onde florestas urbanas podem ser plantadas;
  • é no território onde se decide água, esgoto, resíduos;
  • é no território onde se criam soluções com baixo custo e alto impacto humano.

E, ao contrário dos governos nacionais, que operam com burocracia e lentidão, comunidades podem agir imediatamente.

Mas — e aqui está a chave —

a ação territorial não pode depender de dinheiro que não virá.

Nenhum fundo internacional, nenhum ministério, nenhum banco verde enviará recursos suficientes para transformar bairros, periferias, comunidades ribeirinhas, quilombolas, indígenas ou municipalidades amazônicas.

A transformação precisa vir de trabalho humano organizado, com:

  • mobilização local;
  • mutirões;
  • redes comunitárias;
  • saberes tradicionais;
  • infraestrutura social;
  • protagonismo municipal.

É como sempre funcionou na história da humanidade quando Estados falharam: 👉 os povos se organizaram.


🌱 Como reduzir CO₂ e CH₄ sem esperar por dinheiro?

1. Florestas urbanas e comunitárias

Mutirões de plantio em ruas, quintais, escolas, margens de igarapés e áreas degradadas. Custo: mínimo. Impacto: máximo.

2. Quintais produtivos e agroflorestais

Cada casa ou comunidade pode sequestrar carbono, produzir alimento e criar microclimas.

3. Compostagem comunitária

70% do metano urbano vem de lixo orgânico em aterros. Compostagem elimina isso quase a custo zero.

4. Recuperação de áreas alagadas e igarapés

Zonas úmidas estocam imensas quantidades de carbono. Protegê-las é mais eficaz que qualquer tecnologia importada.

5. Cozinhas solares e eficiência energética popular

Reduzem emissões diretas de CO₂ e custos de famílias vulneráveis.

6. Mobilidade ativa e redes locais de compartilhamento

Menos carro, mais transporte coletivo, mais bicicleta, mais serviços próximos.

7. Gestão comunitária da água e saneamento

Reduz doenças, metano e degradação.


🛠️ E o mais importante: organização social

A mitigação comunitária depende menos de tecnologia e mais de:

  • assembleias de bairro,
  • conselhos comunitários,
  • liderança local,
  • juventudes mobilizadas,
  • integração entre municípios e universidades,
  • pedagogias populares do clima,
  • redes intermunicipais de ação rápida.

Quando o Estado falha, o tecido social é o que salva.


🔥 A conclusão que ninguém quer admitir

Se os povos não agirem agora, nada — absolutamente nada — evitará o agravamento da crise climática.

E não adianta esperar:

  • COP30 não vai salvar o planeta.
  • ONU não vai salvar o planeta.
  • G20 não vai salvar o planeta.
  • Bancos verdes nunca chegarão às periferias.
  • Governos responderão tarde demais.

Mas:

Bairros podem plantar florestas.

Comunidades podem reduzir metano.

Municípios podem criar resiliência imediata.

Povos podem fazer o que Estados não fazem.

Esse é o novo realismo climático. Não é sobre esperar. É sobre fazer, mesmo sem dinheiro, com a força histórica que sempre salvou comunidades em tempos de crise: 👉 trabalho humano organizado, solidário, territorial.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Declaración de científicos del Pabellón de Ciencias Planetarias sobre el estado actual de las negociaciones de la COP30:

  

Declaración de científicos del Pabellón de Ciencias Planetarias sobre el estado actual de las negociaciones de la COP30:

“La mayor parte del presupuesto de CO₂ necesario para elevar el calentamiento a 1.5 °C ya ha sido emitida, principalmente por las principales economías del mundo. Ahora, a mitad de la década, cuando las emisiones globales deberían haberse reducido a la mitad, continúan aumentando. Es inaceptable que las emisiones de CO₂ en 2025 se proyecten un 1,1% más altas que en 2024. Con los niveles actuales de emisión, solo quedan cuatro años antes de que se agote el presupuesto de carbono para 1.5 °C. (...)

Superado el umbral de 1.5 °C, aumenta el riesgo de rebasar los puntos de inflexión y, con ello, el riesgo de graves impactos en cascada. En cada caso, los impactos serían catastróficos —no se puede subestimar esto—. Cada aumento de 0,1 °C en el calentamiento global provoca impactos y riesgos sustancialmente mayores, incluyendo olas de calor más largas y mortales, incendios forestales más frecuentes e intensos, tormentas y precipitaciones extremas, con daños desproporcionados para las comunidades vulnerables, economías frágiles y pueblos indígenas. Esto significa que la adaptación debe ser un foco importante en la COP30.

Los resultados muestran que necesitamos reducciones de emisiones de al menos un 5% por año, comenzando ahora. Lamentablemente, las promesas actuales equivalen a una reducción total del 5% en diez años. La continua dependencia de los combustibles fósiles probablemente llevará al mundo a superar el límite de 1.5 °C más rápido y por más tiempo. Alcanzar emisiones netas cero a nivel global exige un cambio radical de mentalidad y de gobernanza en todos los países, así como, primordialmente, la expansión de las energías renovables, la eliminación progresiva de todos los combustibles fósiles y el fin de la deforestación. Es imposible impedir el aumento de las temperaturas y volver a 1.5 °C sin la rápida eliminación progresiva de los combustibles fósiles. Esto es física. Es imprescindible que los países utilicen la COP30 para crear una hoja de ruta que ponga al mundo en el camino de la eliminación progresiva de los combustibles fósiles. (...)

A medida que los negociadores se reúnan en las próximas horas y días, el desarrollo de rutas para eliminar progresivamente los combustibles fósiles debe ser su principal prioridad. Es la única opción para evitar una crisis planetaria. A pesar de la urgencia de este momento, algunos países están realizando esfuerzos conjuntos aquí en la COP, y anteriormente en las negociaciones del IPCC, para separar la ciencia de las negociaciones climáticas, cuando debería permanecer como su fundamento. Estamos viendo cómo la ciencia se borra de los textos, y esto forma parte de una estrategia más amplia de aplazamiento y negación. Los datos, la ciencia, son vitales para que tomemos las decisiones correctas, tanto aquí en la COP como en nuestros países.”

Carlos A. Nobre, Panel Científico de la Amazonia;
Chris Field, Universidad de Stanford;
Fatima Denton, Universidad de las Naciones Unidas;
Johan Rockström, Instituto de Potsdam para la Investigación del Impacto Climático;
Marina Hirota, Instituto Serrapilheira;
Piers Forster, Universidad de Leeds;
Ricarda Winkelmann, Instituto Max Planck de Geoantropología;
Thelma Krug, Instituto Nacional de Investigaciones Espaciales.