Estamos numa encruzilhada planetária. Já enfrentamos perigos. Bilhões de pessoas sofrem e estamos nos aproximando rapidamente de pontos de inflexão na Amazônia, nos recifes de coral tropicais e em muitos outros ecossistemas. A COP30 tem uma escolha a fazer: proteger as pessoas e a vida ou a indústria dos combustíveis fósseis.
Na forma como estão, ambas as propostas de roteiros para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e para o fim do desmatamento são uma provocação. Os delegados parecem não entender o que é um roteiro. Um roteiro não é uma oficina ou uma reunião ministerial. Um roteiro é um plano de trabalho concreto que precisa nos mostrar o caminho de onde estamos para onde precisamos chegar, e como chegar lá.
Precisamos estar o mais próximo possível de zero emissões absolutas de combustíveis fósseis até 2040, no máximo até 2045. Isso significa, globalmente, nenhum novo investimento em combustíveis fósseis, a eliminação de todos os subsídios a esses combustíveis e um plano global sobre como introduzir gradualmente fontes de energia renováveis e de baixo carbono de forma justa, e eliminar os combustíveis fósseis rapidamente. O financiamento de países ricos para países em desenvolvimento é imprescindível.
Na COP 30 em Belém, já não basta reiterar que o financiamento dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento é imprescindível – ele precisa ser previsível, baseado em doações e consistente com uma transição justa e equitativa. A credibilidade do Acordo de Paris depende disso. Sem ampliar e reformar o financiamento climático, os países em desenvolvimento não podem planejar, investir e implementar as transições necessárias para uma sobrevivência compartilhada.
A única razão pela qual podemos ter uma eliminação gradual e ordenada dos combustíveis fósseis é porque presumimos que as florestas continuarão sendo um importante sumidouro de carbono. Infelizmente, temos cada vez mais evidências de que as florestas estão se transformando de sumidouros de carbono em fontes de carbono. Isso acontece porque as florestas são vulneráveis às mudanças climáticas, que causam secas, incêndios, ondas de calor e conversão do uso da terra mais frequentes e intensas. A principal causa das mudanças climáticas é a queima de combustíveis fósseis; portanto, sem uma eliminação gradual dos combustíveis fósseis, as florestas podem não ter a capacidade de sobreviver e prosperar. É por isso que é igualmente urgente ter um plano para eliminar simultaneamente os combustíveis fósseis e acabar com o desmatamento.
A maioria das florestas tropicais intactas encontra-se em países em desenvolvimento. O roteiro para o fim do desmatamento deve incluir apoio financeiro, capacitação e monitoramento robusto. A proteção florestal não pode ser usada como compensação. As florestas em pé não podem ser uma desculpa para continuar queimando combustíveis fósseis.
A curva global de emissões de gases de efeito estufa precisa se estabilizar no próximo ano, 2026, e não em algum momento futuro. Precisamos começar agora a reduzir as emissões de CO2 provenientes de combustíveis fósseis em pelo menos 5% ao ano. Isso é imprescindível para que tenhamos alguma chance de evitar impactos climáticos incontroláveis e extremamente custosos que afetarão todas as pessoas no mundo.
O orçamento global de carbono, calculado pela ciência, constitui a base para orientar a agenda de mitigação e o ritmo de redução das emissões. O RCB (orçamento de carbono restante) está agora essencialmente esgotado, restando apenas 130 bilhões de toneladas de CO2, o equivalente a 3-4 anos de emissões globais na taxa atual. Este orçamento científico fornece a base para todas as políticas climáticas sérias. É a nossa ferramenta de contabilização para nos mantermos longe do perigo. Remover o orçamento de carbono do texto significa remover a realidade da COP.
SIGNED
Carlos Nobre – Science Panel of the Amazon
Fatima Denton – United Nations University
Johan Rockström – Potsdam Institute for Climate Impact Research
Marina Hirota – Instituto Serrapilheira
Paulo Artaxo – Universidade de São Paulo
Piers Forster – University of Leeds
Thelma Krug – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
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